Com o agravamento da COVID-19, segmentos distintos de profissionais da saúde estão se unindo na corrida por uma vacina ou tratamento eficaz contra o Sars-Cov-2. Entre o grupo, também estão os médicos veterinários.

Todos os medicamentos que utilizamos hoje no tratamento de doenças são previamente testados em animais, passando pelas mãos de médicos veterinários, que são encarregados de certificar a eficácia e segurança da substância antes de chegar ao mercado farmacêutico. Na busca por uma droga capaz de conter o novo coronavírus, não é diferente, com médicos veterinários por todo o mundo trabalhando para desenvolver substâncias capazes de tratar a infecção provocada pelo SARS-CoV-2.

A participação do Brasil na busca pela cura

Até agora, no Brasil, temos duas pesquisas conduzidas por médicos veterinários que vêm ganhando repercussão na mídia. Um destes estudos envolve a produção de um soro hiperimune por meio do plasma de cavalos, enquanto o outro foca na produção de um medicamento feito de nanocorpos derivados de lhamas.

Soro hiperimune

Vinculado à secretaria de estado de saúde do estado do Rio de Janeiro, o Instituto Vital Brazil (IVB) está desenvolvendo uma pesquisa comandada pelo médico veterinário Luiz Edurdo Ribeiro da Cunha sobre um soro produzido por meio do plasma sanguíneo de cavalos infectados com o SARS-Cov-2.

O estudo envolve a inserção do vírus em 10 cavalos para estimular a criação de anticorpos. Cinco deles receberam a proteína S (espinho) do Sars-Cov-2, enquanto os outros cinco foram expostos a amostras inativadas do vírus. A produção dos anticorpos deve acontecer entre 4 a 6 semanas a partir do momento que os animais foram infectados.

Com a presença dos anticorpos, o plasma extraído destes cavalos passará por um processo industrial para o desenvolvimento de uma droga que deve neutralizar o vírus. Tal método já é utilizado para produção de outros soros, como o antirrábico, ou para venenos de animais peçonhentos através do plasma destes equinos.

Se bem sucedido, o medicamento poderá ser utilizado em praticamente todos os níveis da doença COVID-19, auxiliando desde a pacientes com sintomas leves, até os indivíduos que desenvolvem a forma mais grave da infecção.

Segundo Luiz Eduardo Ribeiro: “com certeza o médico-veterinário, com todo o seu conhecimento em virologia e imunobiologia, é importantíssimo neste projeto. Desde todo o conceito de saúde única, levando em consideração até mesmo a origem do vírus, que pode ser uma zoonose, passando pela sanidade e o bem-estar dos animais, a produção do soro hiperimune e o controle de qualidade”.

O M.V. ainda destaca que os cavalos são exemplares perfeitos para condução de um estudo deste tipo, considerando que a espécie é encontrada facilmente em todo o mundo, o que permite a padronização do soro, além serem excelentes doadores de sangue.

Os animais estão recebendo todos os cuidados essenciais para que seu bem-estar seja mantido durante o período de pesquisa… “Os cavalos são bem tratados e bem alimentados, além da questão sanitária. Tomamos todos os cuidados para que o organismo não seja afetado. As hemácias voltam para o corpo do animal, porque o que nos interessa é o plasma, que é o material-base do nosso trabalho”, informa.

Nanocorpos de lhamas

Na Bélgica, um grupo de pesquisadores estadunidenses e alemães publicaram um artigo na revista científica Cell, relatando a imunização de uma lhama batizada de Winter, que havia sido infectada com uma mistura de proteínas do Sars-Cov-2.

Após ter contato com o vírus, o animal produziu nanocorpos que foram capazes de neutralizar o agente, não somente em seu organismo, mas também em estudos in-vitro.

Utilizando a publicação belga como referência, cientistas da Unesp de Botucatu desenvolveram um projeto para criar um medicamento através dos nanocorpos gerados como resposta imune na lhama.

Nanocorpos de camelídeos já são utilizados na medicina em casos de doenças degenerativas, e seu uso é investigado para tratamentos de outros vírus como HIV e influenza.

O estudo está sendo coordenado pelo médico veterinário Rui Seabra Ferreira Júnior, que conta com uma equipe formada por médicos, farmacêuticos, bioquímicos, biólogos e outros sete veterinários.

Segundo Seabra: “uma vacina faz com que o organismo humano seja capaz de produzir anticorpos contra a doença. A gente vai ‘vacinar’ as lhamas para que elas produzam os anticorpos que a gente quer. O soro, se der certo, já age como um tratamento”.

Entretanto, como as pesquisas até o momento foram feitas apenas no modelo in-vitro e ainda não há como ter certeza quanto à eficácia do tratamento: “a pesquisa básica da Bélgica nos mostra que ele é eficaz in-vitro. Logicamente, na hora que colocar no corpo humano, pode não ter uma percentagem de neutralização grande. Os estudos vão mostrar qual é a melhor dose para cada tipo de paciente, se há diferença de dose para pacientes graves ou com sintomas iniciais”, explica o médico veterinário.

Seabra ainda enaltece que a medicina veterinária talvez seja uma das profissões mais adequadas para realizar esse tipo de estudo, pois o médico veterinário possui capacitação para entender componentes básicos de uma doença por meio de suas características bioquímicas, imunológicas, patológicas e fisiológicas.


Fontes: CFMVCRMV-SPCRMV- RJ e revista científica Cell, adaptado pela equipe VeteduKa.

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